Legado da Copa: o jogo das oportunidades perdidas

Publicado pelo Observatório das Metrópoles

BRT no Rio de Janeiro

Em artigo publicado na Revista CNT Transporte Atual, o pesquisador Juciano Martins Rodrigues, do Observatório das Metrópoles, discute o legado da mobilidade urbana no contexto dos megaeventos esportivos. Segundo ele, a política de mobilidade no contexto da Copa de 2014, por exemplo, reforça enormemente o desequilíbrio entre os modos de transporte urbano, privilegiando o transporte sobre rodas, sobretudo o individual. Além disso, os projetos pouco se relacionam à promoção de modos não motorizados.
O INCT Observatório das Metrópoles tem monitorado, por meio do projeto “Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa e das Olimpíadas nas metrópoles brasileiras”, as obras de mobilidade urbana nas principais cidades do país. O pesquisador Juciano Martins Rodrigues é o coordenador do eixo Mobilidade e tem produzido análises sobre as políticas para o transporte no Brasil. Em novembro de 2013 foi lançado o Relatório “Evolução da frota de automóveis e motos no Brasil” que aponta um aumento da ordem de 138,6% na frota de veículos automotores no país. O Brasil exatamente dobrou a quantidade de automóveis, por exemplo, passando de 24,5 milhões (2001) para os 50,2 milhões (2012).
O estudo mostra ainda que a frota de motos continua crescendo no nosso país: em São Paulo o acréscimo foi superior a 1 milhão no período 2001/2012; no Rio de Janeiro a frota de motocicletas triplicou, passando de pouco mais de 98 mil para 472 mil.
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A seguir o artigo “O Jogo das oportunidades perdidas na Copa do Brasil”, de Juciano Martins Rodrigues, publicado na Revista CNT Transporte Atual.
Legado da copa: o jogo das oportunidades perdidas
Juciano Martins Rodrigues
 
Da permanente crise da mobilidade que atinge as cidades brasileiras não escapa nenhuma das 12 cidades sedes da Copa de 2014. Nessas cidades estão previstas várias intervenções, que têm sido colocadas pelo poder público como a solução paras os graves problemas de transporte. O resultado dessas intervenções e seu impacto positivo na vida das pessoas é o que chamam de legado.
Como tem sido amplamente noticiado pela impressa, muitas das obras estão atrasadas. Enquanto outros projetos foram simplesmente abandonados. E isso é motivo de grande preocupação por parte da sociedade.
Claro que essa preocupação é absolutamente válida e necessária.  Afinal, as promessas de melhoria são itens centrais no discurso do “legado social” que justifica os esforços políticos, a mobilização social, a destinação de volumosos recursos públicos e, inclusive, as intervenção de pouco valor social, como muitos dos estádios.
Mas não devemos nos preocupar somente com isso. A sociedade brasileira deve discutir também se as soluções propostas são saídas definitivas para esses graves problemas, como promete e anuncia o discurso oficial.
Entre outras coisas, devemos questionar, por exemplo, se os tipos de modais escolhidos e suas localizações no território correspondem às reais necessidades da população. E, apesar de estarmos a apenas três meses da Copa, nunca será tarde para questionar que modelo de cidade está sendo implantado, pois sabemos que o transporte tem grande poder de estruturação urbana. Continuaremos expandindo nossas cidades irresponsavelmente?
É difícil responder todas essas perguntas agora. Mas algumas certezas já temos. Uma delas é que as intervenções vão de alguma forma amenizar os problemas. No entanto, há sinais de que soluções são insuficientes para metrópoles onde a população se desloca por grandes distâncias e muitas vezes de um município para outro. Há dúvidas se o modelo BRT é a solução para cidades com essas características, como Rio de Janeiro, por exemplo.
No atual cenário, a sensação é de perda de uma grande oportunidade. Mais do que isso, a política de mobilidade no contexto da Copa reforça enormemente o desequilíbrio entre os modos de transporte urbano. Poderíamos, inclusive, aproveitar o momento para colocar em prática os objetivos e as diretrizes da Lei 12.587, a Lei da Mobilidade Urbana. Ao contrário, as ações e projetos seguem o caminho inverso por ainda privilegiar o transporte sobre rodas, sobretudo o individual. As ações pouco se relacionam à promoção de modos não motorizados.
Há muitos anos não se investe em transporte aquaviário, por exemplo, perdendo-se a possibilidade de se aproveitar todo o potencial das sedes litorâneas, como Rio de Janeiro, Salvador ou Fortaleza.
A Copa poderia ser uma grande oportunidade. O jogo poderia mudar.  Mas parece que não vai ser dessa vez.

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